SOBRE LER CLARICE


Sou workaholic assumida em assumido estado de recuperação. A recuperação, nestes casos, é constante. Tipo grupo de AA, no mais respeitado estilo “só por hoje” eu não vou trabalhar demais, ou falar demais sobre trabalho. Mas a real é que penso em trabalho até quando seria pra apenas me divertir e tenho um jeito estranho de sentir que estou perdendo tempo com certos divertimentos.
RPG é um jogo que admiro por todo o contexto que o envolve: criatividade, raciocínio rápido, estratégia, espírito de equipe, criar um personagem e viver, durante o jogo, a vida dele como forma de fugir da rotina da sua. Já tentei. Não consigo jogar RPG. O que fica, mesmo com isso tudo, é uma sensação total de perda de tempo. Poderia preparar uma aula, escrever um texto, ver um filme ou ler um livro no tempo que estou ali inquieta, conferindo a hora o tempo todo enquanto jogo. Jogava. Não jogo mais. Jogos em geral, me causam esse mal estar. Por outro lado, passar cerca de duas horas vendo um filme do Woody Allen é ganhar tempo. Assim como me esqueço do deus Cronos quando estou no teatro ou numa apresentação de ballet.
Mas quem me conhece sabe que meu ganha-tempo preferido é a leitura. Mas não foram poucas as vezes que ouvi pessoas dizendo que eu podia fazer “tal coisa”, já que eu não estava fazendo nada; isso enquanto tinha um livro em mãos. Em algumas delas, estava lendo Clarice.
Na verdade ler Clarice nem é ler. É transcender. Não se lê Clarice, lê-se a si mesmo, enquanto se pensa ler Clarice. Apesar de declarar-se a favor do direito das mulheres e se angustiar com a pressa de quem tinha fome, Lispector nem intencionava mudar o mundo com a sua escrita, mas mudou o mundo de muita gente com sua pontuação que dava um significado muito maior a cada palavra. Através de seu olhar, enxerga-se melhor o olhar do mundo. O olhar desviado de quem finge não ver que tem gente passando fome e que mulher é gente. E que estudante é gente. E que os animais merecem respeito. E que não existe competição entre maternidade e literatura, mas que se existisse, a literatura perderia feio.
O mundo, de fato não foi transformado por ela, que assim como eu, admirava os momentos de silêncio, onde se curte melhor a solidão. O homem é um ser solitário que interage com outros seres solitários ao longo da vida. E exatamente por isso, não se sente só. Só que conviver com seus momentos de solidão, além de necessário, é inevitável.
Por isso, entre fazer “alguma coisa” e ler Clarice, leio Clarice. Porque neste simples ato solitário que me deixa muito bem acompanhada já tenho a consciência do tudo nele existente. 

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