COISA MAIS LINDA



A série brasileira original da Netflix faz jus ao seu nome ao usar uma dose certa de leveza e belos cenários para trabalhar temas tão pesados. Vou me furtar a comentar a atuação das atrizes, já que, utilizando-se de iluminação e figurinos perfeitos e mesmo sendo curta, com apenas sete episódios em uma única temporada, mostra a que veio e dá o recado necessário para esses novos tempos retrógrados. O final surpreende deixando no ar uma dúvida sobre a intenção de uma segunda temporada, mas se a ideia é que se tenha apenas uma, penso que certos temas poderiam ter sido mais esmiuçados. Entre comentários de não representatividade feminina devido aos corpos esculturais “irreais” das atrizes principais e os que ressaltaram um outro lado feminista da coisa, apoio os dois e encaro a obra-prima como uma espécie de “documentário” literário da luta da mulher por seus direitos.
Preciso deixar claro que amo documentários e amo literatura. A parte literária fica por conta dos diálogos que, para alguns, podem soar clichês, mas talvez exatamente por isso a percepção de uma urgência em se registrar tudo o que fundamentou a luta das mulheres nas décadas de 50 e 60. E quando digo tudo é sem o menor exagero.
Ser abandonada pelo homem que amou e em quem depositou toda confiança, se sentir impotente diante de uma sociedade que te encarava como se sua vida estivesse desgraçada. E de certa forma estava, já que pra recomeçar como empreendedora, teria que contar com a assinatura de algum homem para validar todo o processo, além de ficar longe do filho para se reestruturar e correr o risco de perder sua guarda. E esse é só o início. À medida em que os capítulos vão se desenrolando, deixa claro a dificuldade desproporcionalmente maior do feminismo negro com a luta de quem a vida não concedia escolhas.  Ainda não concede, na maioria dos casos, apesar do aumento da representatividade negra nos últimos anos.
A série que se aproveita do surgimento da Bossa Nova para transbordar músicas de letras suaves no gostoso ritmo sincopado, intercalando sensibilidade e tensão, também aborda relacionamento abusivo, estupro marital, o deixar de realizar seus sonhos para realizar os do “macho” que ama (ou pensa amar, ou não ama, mas se vê obrigada a aceitar), apanhar por isso e ser literalmente expulsa do clube ao se tornar “má influência”. Se a mulher já era chamada de vadia sendo heterossexual, pensem em quantas tiveram que esconder serem lésbicas para manter a boa “reputação” e não desonrar a família.



O ponto alto da série é mostrar o quanto as mulheres se fortalecem ao se unirem. Ao revelarem suas vidas imperfeitas e entenderem que todas têm seus dramas, e que um drama não é nem maior e nem menor que o outro, apenas diferente e que o ponto em comum é que não viveriam esses dilemas se fossem homens, percebem que o que incomoda os tão bem sucedidos seres do sexo masculino é que o sucesso delas está muito mais atrelado a essa rede de amizades sinceras que deixa suas vidas mais suportáveis e com isso, mais felizes que a dinheiro conseguido em meio a uma rede de homens que competem entre si qual é o mais infeliz dos machistas num ambiente frio, interesseiro e pobre do que o dinheiro não pode comprar. A série é super eficiente em mostrar que o feminismo também faz mais feliz os homens.
O tempo passou, muito se foi adquirido, apesar de ainda ter várias pautas a se conquistar. Por isso não entendo mulheres que já nasceram numa era onde, por mais dificuldade que se tenha ainda é mais fácil ser mulher, sentirem nostalgia de tempos de total subserviência. Mais que isso, lutarem pela volta dessa época baseando-se na premissa de que tudo era mais romântico. É inconcebível, em pleno século XXI, atrelar relacionamentos tóxicos e abusivos a romantismo, se ainda é árdua a luta para nos libertarmos dessa horrenda prisão sem grades chamada machismo.


Comentários

  1. Análise perfeita! Uma das melhores séries dos últimos tempos! Com leveza nos mostra o feminismo e a sororidade! Amei seu texto!!

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  2. Parabėns Alcimare, linda série , linda análise
    Bjus

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  3. Amei, muito bem esclarecido seu texto

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  4. Adorei essa série! Você conseguiu captar o que realmente valeu a pena pra mim assistir. A União das mulheres, ao meu ponto de vista é fundamental nos dias de hoje aonde a competição reina. Gratidão linda!

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