EXPERIÊNCIA
Estou
aqui mais uma vez encarando o papel em branco, caneta em punho. Um tanto
angustiante. O papel me acolhe e fazemos um pacto de que as palavras que
entrego a ele também lhes sejam acolhedoras.
É
um estranho bom a caneta esferográfica fazer o trabalho que tem sido feito
pelas pontas dos meus dedos. Pontas essas que seguram a caneta e me mostram uma
caligrafia que se desgastou com o tempo. Não tenho mais a preocupação de menina
com a letra desenhada. A verdade é que nunca fui boa desenhista, apesar de me
aventurar em alguns traços a lápis preto e gostar deles a ponto de quase querer
bordá-los e quem sabe até coloca-los expostos com todas as suas forças e
fraquezas em alguma parede da casa ou da alma. Às vezes não sei que forma irão tomar, e nisso
são muito parecidos com as histórias que moram em mim, que teimam em nascer
pelo motivo óbvio: Não querem ser incorpóreas pela eternidade.
Escrever
é dar forma ao imaterial. É a percepção do que poderia ter sido, mas não foi. É
tornar real o imaginário. Dizem que para se tornar um dos grandes, o isolamento
é inevitável. Não acredito em autores antissociais. Em inadequação social, sim,
tipo ter um gosto peculiar por músicas e programas televisivos que a maioria
odeia e de algum modo ficar sem assunto naquela festa que está “bombando”. Como
ter um outro olhar para as pessoas se não estivermos observando-as de perto,
quando estão perto de atingirem seus limites? Escrever é não limitar-se ao
engano dos olhos.
Tento
não sucumbir à facilidade de enganar-me diante do papel em branco. Não deve ser
como uma página em branco a vida imaginária que se fará real mediante minha
escrita. Mas é como papel que pode se transformar em origami e acaba amassado
na lata de lixo porque seu criador se esqueceu como eram as primeiras
dobraduras, que me sinto agora; travada por esse maldito bloqueio criativo. Esse
bloqueio que me paralisa as pontas dos dedos. Que mata o futuro ainda não
criado dos meus personagens tão reais. Mais real do que muita gente viva que
perambula por aí também sem perspectiva real de um futuro inimaginável. Olho
fixamente para a folha que continua em branco. Devo mesmo ser uma fraude. Devia
ser proibida qualquer expectativa de que o próximo livro deve superar o
anterior.
Um
autor profissional não deveria ter um fluxo de consciência criativa por
quarenta minutos e se odiar por passar o resto do dia preocupado porque não
escreveu mais uma linha sequer.
Deviam
mesmo ser proibidas as expectativas de qualquer espécie. Afinal, não sou uma máquina
de contar histórias.



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