O QUE EU APRENDI COM CHIQUINHA GONZAGA E RITA LEE




Uma nascida em 1847, outra em 1947. Cem anos separam Chiquinha de Rita. A primeira, filha de um militar com uma negra. A segunda, filha de um americano com uma italiana. Mestiçamente revolucionárias, as duas fizeram história na música popular brasileira.
          Com irreverência e bom humor, enfrentaram as dores e as delícias da vida que escolheram levar.
        Ainda criança, as duas tiveram aulas de piano com os melhores professores. Chiquinha apaixonou-se pelo instrumento e aos 11 anos compôs sua primeira obra. Uma cantiga natalina intitulada “Canção dos Pastores”. Rita, custou a se acertar com o piano e em sua primeira audição, ao fazer xixi no banquinho, ganhou um diagnóstico de “palcofobia” e foi aconselhada a seguir qualquer carreira não artística.
Foram obrigadas a se casarem bem jovens (Chiquinha aos 16) para manterem as aparências perante a sociedade. Divorciaram-se poucos anos depois mostrando que um papel era apenas um papel, e provaram assim, que não precisavam exibi-lo para serem felizes. Desfazendo-se dos casamentos “de mentirinha”, Gonzaga se torna a ovelha negra da família, que considerando-a morta, devolve-lhe a vida. Lee, ao contrário, ganha sua liberdade, ao casar-se “de faz de conta” com um amigo de banda, para que, honrando o nome de seus pais, pudessem viajar levando sua música para o Brasil sem enfrentar problemas com os quartos de hotéis (ou como a própria denominava: comunidades hippies).  Ser mulher e viver de sua música no século XX, não deveria ter sido, mas ainda era tão difícil quanto fora no século XIX, porque por mais que o tempo passe, a sociedade insiste em se prender a certos costumes e um deles é a tentativa de escravização das mulheres pelo feminino. Só que recatada e do lar eram adjetivos que estavam longe de definir as personalidades fortes de Chiquinha Gonzaga e Rita Lee.



Se uma mulher divorciada em 2018 ainda sofre preconceito, inclusive, de outras mulheres, imagine as situações, pelas quais, Chiquinha teve que passar em 1868 para se reafirmar, pessoal e financeiramente. Seu talento ao piano não bastava, já que “mulher direita” não podia se apresentar em público. A menina que fora criada para ser a nobre dama da corte de D. Pedro II, agora morava num cortiço e dava aulas de piano para sobreviver.
            Lee, vocalista de Os Mutantes, banda de rock mundialmente aclamada, se vislumbra com o sucesso e se perde entre sexo, drogas e rock and roll.
            Sem ter mais nada a perder, Francisca, apadrinhada pelo flautista Antonio Callado, que ao misturar o lundu com a polca fez nascer o chorinho, se junta aos chorões e abrilhanta a noite boêmia carioca com seu talento ao piano. Compõe Atraente que atinge milhares de cópias de partituras vendidas (e queimadas pela elite que a repudiava, afinal música boa era a erudita).
            Um século mais tarde, Rita Lee atrairia milhares de fãs ao cantar “a gente faz amor por telepatia” e só ganharia muito dinheiro por causa da luta de Chiquinha para que os artistas tivessem garantidos seus direitos autorais.
            Indignada por mulheres ganharem menos que homens exercendo a mesma função ou por ter que recusar estrear uma opereta por uma das exigências serem assinar as composições com um pseudônimo masculino, Gonzaga é uma das pioneiras na luta feminista no Brasil. Lutou também pelo fim da monarquia e pela abolição da escravatura, e chegou a vender suas partituras de porta em porta angariando fundos para a alforria de Zé da Flauta, um escravo amigo seu.
            Assim como Chiquinha, Rita mostrou que não se faz feminismo com discursos e sim com atitudes. Ousou falar de sexo em letras de música como “vê se me dá o prazer de ter prazer comigo, me aqueça, me vira de ponta cabeça, me faz de gato e sapato, me deixa de quatro no ato, me enche de amor” numa época em que mulher nem rock podia fazer por não ter culhões.
            Chiquinha Gonzaga, muito à frente de seu tempo, é a primeira pessoa a criar letra e melodia para uma música carnavalesca. Ô abre alas, sua obra mais famosa, está entre as marchinhas de carnaval mais cantadas até hoje.
            Petulantemente atrevidas, ousaram viver suas paixões pela música e pelos homens. Rita Lee faz um casamento de alma com Roberto de Carvalho ao virar sua parceira sexual e musical. Chiquinha após se divorciar de João Batista de Carvalho, seu segundo ex-marido, ao flagrá-lo com outra mulher, vive um romance com nada mais nada menos que o maestro Carlos Gomes e decide que, assim como ele, se tornaria maestrina e se torna, algum tempo mais tarde, a primeira “maestra” de saia. Mas é aos 52 anos de idade que o verdadeiro amor a encontra e ela samba na cara da sociedade ao se relacionar de modo intenso com João Batista Lages, um garoto de dezesseis anos, que fica ao seu lado até sua morte, aos 87, em 1935, ironicamente num fevereiro de carnaval.
Pra nossa alegria, Rita ainda vive, limpa há 12 anos e achando muito louco ser careta, compõe e lança livro autobiográfico.
           Por encararem a vida de frente é que Chiquinha Gonzaga e Rita Lee transgrediram o tempo e ainda nos ensinam tudo o que uma mulher deve fazer: Viver intensamente suas paixões e não ter medo de ser quem se é.
Sorte a nossa, que o maior “defeito” dessas duas era não saber parar.


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