MENINA FLOR
E
essa é a história da menina flor que nem sempre era uma flor de menina. Que
atrevida! Dizia um. Que espevitada! Dizia outro. E entre um adjetivo e outro
desabrochava, mesmo com tanto estímulo que mais lhe servia para murchar. Ela
não murchava. Era mesmo uma espevitada atrevida que floria e floreava a vida. A
dela e a de quem com ela tanto se incomodava. Por que ela incomodava? Por que
era a exceção quando deveria ser a regra? Por que não podia tanta coisa só por
ser menina? Por que seu perfume floral era motivo de tanta repressão? Olhe os
modos, feche a perna, menina não fala assim, que falta de compostura, a filha
da vizinha...
A
filha da vizinha não era flor. Estava mais pra árvore. Árvore do pior tipo. Que
não dá fruto. Nem flor. Que se sufoca tanto que cresce pra baixo em solo
infértil e as raízes destroem a calçada. Em breve será só toco de tão podada.
Flor
só queria ser menina. A mãe é que lhe chamara Flor. Nunca soube o porquê, mas
gostou, apesar de delicada não ter nada. Bruta também não era, apenas ousada.
Podia ser Maria. Não Maria assim, puro, sem acompanhante. É só que sempre achou
que Maria Flor combinava. Combinava mais que a combinação que a sociedade
cobrava dela. E os namoradinhos, Flor? Contraditória a sociedade. Flor era só uma menina que florescia sem se importar
com bem me quer ou mal me quer. Menina não-criança. Menina não-mulher. Menina
não namora. Brinca de ser flor. Nem precisa pertencer a um jardim. Pode ser a
do vaso na janela, e nem precisa ser a mais bela. Nem liga se é rosa, azul ou
amarela. Só deixem que seja ela. No tempo dela. No corpo dela de menina flor
que não é Maria e nem quer ir com as outras.



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