CLEÓPATRA E BEYONCÉ: A DIFERENÇA QUE AS UNE
Diva,
do latim divus, segundo o dicionário
Michaelis é uma divindade feminina, ou seja, uma deusa. Outra definição é musa
inspiradora. Deusa feminina que inspira artistas e pessoas comuns a serem como
ela é. Assim, a afirmação “uma mulher
empoderada empodera outras” cabe perfeitamente neste contexto, já que
tamanha influência nunca poderia ser atribuída somente ao físico dessas divas,
mas sim ao poder exercido sabiamente por elas. Cleópatra e Beyoncé representam
a mais pura definição de mulher empoderada. Só que musas inspiradoras também
podem, mesmo que não desejem, inspirar dores, pois não tem como falar de poder
sem mencionar inveja. Neste caso, abordar um poder feminino que transcende o
tempo, que rege nações e inspira pessoas ao redor do mundo, é falar de um poder
que se tornou mitológico, em que fica difícil separar o que é lenda do que foi
real e, exatamente por isso, faz muita
gente invejá-lo.
Então,
eis que me é lançado um desafio: “shippar” Cleópatra e Beyoncé. Na hora pensei
que fosse uma tarefa tipo missão impossível, principalmente quando me dei conta
de que desde o 6º Ano que em minha época de aluna, lá pelo início dos anos 90,
ainda era chamado de 5ª série, não havia estudado mais nada sobre a famosa
rainha do Egito. Tirando seus relacionamentos com Júlio César e Marco Antônio e
o plano arquitetado engenhosamente para que uma cobra a picasse (livrando-a de
ser escrava do novo rei Otaviano), não me vinha muita coisa à memória. Ficou óbvio
que eu precisaria estudar Cleópatra. Depois de quatro vídeos incluindo dois
documentários do Discovery History, já estava perita na “encarnação” da deusa
Isis.
Estava
pronta para me debruçar sobre a carreira da atual diva pop, que apesar do
sucesso midiático, não me chamava muita atenção de modo que eu mal sabia
relacionar a ela os títulos que conquistaram por semanas consecutivas o
primeiro lugar na Billboard top 100 americana, para que, enfim, eu pudesse enfrentar
as dificuldades de traçar os aspectos em comum sobre as duas beldades. Qual não
foi a minha surpresa ao notar que estes pontos se arremataram naturalmente
diante de meus olhos.
Para
começar, as duas, desde criança, foram treinadas pelo pai para serem
vencedoras. Cleópatra aprendeu idiomas (acredita-se que ela falava 9) como
forma de ser treinada para se tornar Rainha do Egito apesar de sua descendência
grega (ela era parente distante de Alexandre, O Grande). Beyoncé recebeu desde
a infância todo treinamento possível para ser Rainha do Pop. O pai fazia com
que ela e as amigas de grupo praticassem 8 horas por dia intercalando entre dança,
canto e até aulas de como se comportar em uma entrevista.
Para
atingir seus objetivos tiveram que fazer parcerias estratégicas. Cleópatra na
política pela expansão territorial com Júlio César e Marco Antônio, Beyoncé na
formação da Girl Band com kelly e Michelle que originaria a Destiny's Child com
o refrão emblemático “In the words of a broken heart it's just emotion
taken me over” da música Emotion que ganharia
destaque nas mais badaladas rádios do mundo.
Com
o rosto de Cleo cunhado em moedas, provou-se que ela estava longe do padrão de
beleza clássica estipulado pela nossa atual sociedade que opta por atrizes que
se encaixam no belo eurocêntrico para encenar a líder egípcia no cinema.
Cleópatra seduzia por sua inteligência, sensualidade e maquiagem. Pesquisando
Bey desde o início de sua carreira, fica evidente que ela, infelizmente,
descaracterizou sua beleza negra, afinando o rosto e o nariz e alisando o cabelo
para se encaixar no padrão de beleza europeia exigido pelo perverso mundo do
show business. Nada disso teria sido necessário já que ela já encantava seus
fãs por seu carisma e pela ousadia de suas atitudes e canções. Além da
maquiagem poderosa, herança deixada por Cleo que, não delineava o entorno de
seus olhos com o intuito de seduzir (ainda que seduzisse), mas sim de
protegê-los, através da química contida no chumbo, de bactérias que poderiam
deixá-la cega.
Como
se tais semelhanças já não bastassem, ainda vem a descoberta de que Beyoncé teve sua primogênita Blue Ivy e depois
engravidou dos gêmeos Rumi e Sir assim como a rainha egípcia que teve seu
primogênito Cesarión, filho de Júlio César, e depois engravidou dos gêmeos Cleópatra Selene II e Alexandre Hélio que Marco Antônio
reconheceu como seus filhos.
“Apesar
de César estar muito envolvido com Cleópatra, decide voltar a Roma, mas a deixa
grávida de um filho seu. Em 27 de junho de 47 a. C., nasceu Ptomoleu César, que
o povo egípcio chamou de Cesarión (pequeno César).”
Cleópatra,
em vários livros e filmes é retratada como ardilosa traidora assassina por ter
forjado a morte do próprio irmão para ascender ao trono, movida por sua ávida e
ambiciosa busca por poder. Assim, entra para a História como uma mulher ameaçadoramente
inteligente e independente, um ser genuinamente político. Uma verdadeira mulher
de negócios, que ao se aprofundar e se apropriar da cultura egípcia, se torna
amada e adorada pelo povo que a reconhece como a própria deusa Ísis. Seguindo
uma linha de raciocínio paralelo, Beyoncé também teve que se tornar uma
administradora de sua carreira, marca e fortuna, principalmente ao se ver
associada a causas opostas às que ela milita, como, por exemplo quando a
cantora desfez a parceria da 'Ivy Park' com Sir Phillip Green, acusado de
assédio racial e sexual. Porém, “Foi sempre preferível atribuir o sucesso de
uma mulher à sua beleza do que à sua inteligência”, diz a autora de “Cleópatra
– Uma Biografia” lançada pela editora Zahar em 2011. Contudo, para Beyoncé,
mais difícil deve ter sido administrar a enorme inveja que sua irmã sentiu de
seu sucesso tendo, inclusive, que fazer tratamento psicológico para tentar
superá-lo. Ter alguém, sangue de seu sangue, que prefere te ver cair a
comemorar contigo tua vitória, deve ser, para dizer o mínimo, doído demais. Mas
pensar como indolor o caminho das pedras seria uma ilusão e divas, deusas
femininas, musas inspiradoras, mulheres empoderadas, não vivem de ilusões e
sim, de conquistas reais.
Mulheres
fortes não precisam do título para que sejam feministas. Cleópatra, mulher
muito à frente de seu tempo, foi milênios antes de tal nomenclatura ser
incluída no dicionário. Beyoncé apropriou-se do termo para tornar-se uma e por
meio de músicas como Survivor, Independent Woman, Irreplaceable,
If I were a boy e Run the world (Girls) se firmou na luta. Mediante tantas semelhanças, talvez,
essa seja a diferença que as une.



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